Pareço um Rimbaud sem critério num apartamento cheio de livros-tábuas-de-salvação. Esperando a hora da sentença, de vir a polícia batendo à porta desse apartamento clandestino. Com saudade antecipada de uma coisa que ainda não terminei. Com medo dela, de que ela termine e se torne uma lembrança distante [mais uma].
O coração ligado no repeat se distrai nos tecidos. É música magoada de solidão. Quando os fios se silenciam, essa música se pronuncia do escuro. Diferente de engolir seco, ela desce visceral como um espesso rio de fogo. Ele [Rimbaud] diz que o desregramento total dos sentidos tem em uma de suas formas a tortura, como de quem passa "uma temporada no inferno" e volta. Não sei se acredito, não quero ir até lá, nem preciso.
Já penso no verão: ele será branco e etéreo, mais Patti do que nunca, mas sei que essa ideia ainda é um apego ao inverno. Apesar de evitar entrar em viagens que digo não saber o destino, algumas já conheço e ignoro que sei onde vai dar.
Percebo que não perdi minha tímida mania de perseguição, acompanhada de uma enorme autocondenação. Nem a mania de desviar o olhar. Nem o jeito cabisbaixo de fingir que não estou ali sentada na escada. O velho estilo anti-histeria, seriamente acentuado. Praticamente grave.
Estou perto de uma enorme chuva que vai cair, mas não enxergo a nuvem.
É uma baita chuva que vem lavar a calçada.
Um comentário:
Orgulho de começar a sexta lendo isso *-*
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