Sonhei que a gente tava no motel. Mas era uma burocracia na recepção. Parecia uma sala de espera de consultório. Parecia gente com uniforme hospitalar justificando a demora.
Sonhei que estava na sorveteria. Não sei se sonhei isso mesmo.
Sonhei com a minha casa nova.
Tive um dejavu sobre atender no whatsapp, sobre as crianças, sobre os bêbados, sobre dar o fora daqui, sempre.
Você mordia a ponta da minha coxinha, eu ficava brava. 5 anos depois. De novo: a ponta da coxinha caiu no chão, mas fui compensada. Sonhei que encontrava as respostas na outra. Na outra coxinha que ganhei. Na ponta dela. Na que caiu no chão. Na metade dela. Sonhei que eu era metade dela, mas ela era inteira.
Sonhei com a sua mecha azul. Fiz um desenho. Sua irmã era malvada. Era uma viagem pra montanha. Dei em cima de todo mundo. Me culpei. Tomei vinho e dei risadas com a irmã malvada. Te enviei mensagens. Precisava levar alguém de carona pra sua casa. Mentira, não precisava, estava interessada na conquista. Te mandei carinhos. Demos risadas. Evaporou...
Sonhei que te botava pra dormir e dava um beijo de boa noite na tua testa. Sonhei que abria aquele vinho guardado há meses. Foi? Sonhei que te encontrava no bloco de Carnaval. Que a vida era assim, que não era problema um jantar com dez pessoas. Sonhei que você era simples, não sei se acordei.
Sonhei que ouvia um podcast, e você também. E a gente tinha tanta coisa em comum... Não sei nem dizer o quê.
Não sei se sonhei com você. Se tava mesmo dormindo naquela hora. Se tinha uma ideia envolvida, se imaginei, o que acontecia. Se olhei a tua foto, se te vi, se ouvi a tua voz, se te esqueci. Sonhei que não era uma vaga lembrança, um mero desejo por outro corpo colado com o meu. E se fosse, sonhei que tudo bem, que você pensava assim também. Que te encontrava e conversava por horas e horas. Que roubava sorvete do seu potinho com a colher. Que te levava pra tua casa, eu ia pra minha e não casava. Que "a gente" podia existir e não seria um clichê lésbico, ainda bem. Que era lúcido e responsável, o que eu admirava. Que não conduzi minha emoção, que mais um pouco me apaixonava. Que só por ser admirável eu casava um dia.
Eu e ela estávamos ali encostadas na parede...
Não me recordo se eram horas, dias ou meses
Sonhei que eu encontrava paz
Sonhei que meus fragmentos eram eu
Não sonhei mais com ela
Acordei várias vezes e escrevi uma coisa sentimental, era isso aqui.