quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Como fazer roupas, Dykewear, Indignações sobre o mercado, Novidades não-novas e Histórias
Durante a faculdade, você aprende que fabricar uma roupa é assim:
Planta o algodão, tosa o animal ou extrai algum minério. Manda pra um puta maquinário complexo fazer o fio. Outra máquina moderna vai tecer, outras beneficiarem, lavarem, desengomarem, etc. Tem aquela empresa que vai fazer o corante, a outra a resina, o amaciante, a mão-de-obra que vai limpar o algodão, o representante da fábrica, o aplicador de foil, a tinta para o silk, a tela, o secador... Aí vem você, o Criador (de problemas), pra inventar mais gente e mais coisas no processo: a modelista, a costureira, a bordadeira, a facção, o assistente adolescente, aviamento, linha, interferência, acessório, bainha difícil, bolso sem utilidade, pedraria ornamental, babado, godê, plissado, tudo que consome mais tecido, mais tinta, mais tempo e mais processamento. Mais uma roupinha totalmente nova na arara do mercado!Depois ainda vem a equipe de marketing colocar o produto no pedestal. Você constrói toda a sua loja com cheiro de nova: mobília, cimento, vendedora adolescente que quer ter independência financeira dos pais... a loja cresce, abre franquias, a roupinha vai se multiplicando. O tecido vai se multiplicando, toda a cadeia corre mais e mais acelerada a cada peça. Agora você está com o ego satisfeito.
Você aprende que moda e sustentabilidade são difíceis de conciliar. Que moda sustentável é tudo que é remendado com justificativa vintage. Eu quero que se f* a moda sustentável, ninguém sabe ao certo o que ela é. Se você quer tomar o tempo dessa gente toda acima, ao menos construa um estilo impactante - não que ele justifique os seus 2 milhões de pecinhas na arara toda semana, mas essa discussão é outra... Ser criador é criar desejos, não problemas. É ver, e não cegar-se. É não achar que está tudo certo e normal. A pergunta é: que tipo de desejos estamos criando?
A primeira verdade cruel que ouvi de uma professora, antes mesmo de pensar em faculdade, é que eu não posso carregar o mundo nas costas, coisa que minha mãe poderia ter dito. Entre amor e ódio, essa era a Miriam, dava aula de Análise de Tendências - a disciplina mais fatal sobre as pessoas procurarem na vitrine o que não encontram dentro delas mesmas.
A segunda verdade poética que me levou a esse resultado, encontrei em um grafitti no muro, quando fazia aula de música, citando Jung: "quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta". Estava ali, do lado de fora, na rua. Olho o tempo todo, sonho, desperto, tenho pesadelos, agonizo, sofro, mas é realmente fora dali que encontro resposta para os dramas diários: dentro, de olhos fechados. Criar é ver, não cegar-se, e reagir. O constante conflito entre sonho e realidade.
O terceiro momento poético foi quando conheci a Andrea Crews. Nem sabia o que me esperava, e o Pense Moda parecia de fato mais true nessa época. E o quarto, o momento marketing das últimas férias.
O que tem isso com a dykewear? Joga as indignações no liquidificador com Mapplethorpe, Helmut Newton, os fake straight edges, beatniks e a geração z, aí a gente conversa no fim do ano. Não precisa mudar o sentido da roda. Eu só quero fazer algumas coisas ao contrário, não para mostrar que é possível, mas para acreditar que é...
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