né?
quarta-feira, 16 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Ninguém é único, porra.
Vou começar esse texto com uma pergunta que não saiu da minha cabeça hoje. Mas já avisando, é quando uma pergunta leva a outra e você vai vendo que não dá pra separar as coisas:
Quem inventou que a vida é pra ser vivida aos pares?
Best friends, namorado, irmão preferido, metade da laranja, amor e ódio, colarzinho de coração metade-metade.
Ninguém é único. Isso é só uma mentira que te contam pra te fazer sentir melhor.
Dói saber, né? Afinal, o que seria da sua identidade, sua Ó GRANDE individualidade se houvesse outro igualzinho a você não tão longe nesse mundo? Poderia ser um motivo de comemoração afinal encontrar quem te entenda, mas não. Por que isso tanto fere as pessoas? Somos Eus Absolutos reinando uns sobre os outros. Admitimos e adoramos que sejam parecidos conosco, mas somente à medida que esta similaridade nos parece uma exaltação a nós mesmos. Iguais, jamais. Igualdade de condições, só até certo ponto. Mais bonitos ou mais espertos que nós, só se for para nos servir de espelhos.
Vivemos dentro dos limites da "liberdade individual".
Liberdade essa que não força outros limites, porque o seu campo de expressão é o consumo, que não tem obrigação política ou preocupação com os outros. O consumo é uma expressão individual e um fim em si. Valores transgressores e que fogem ao comum são belos, mas só belos. E por algum tempo, enquanto são novidade. Podemos nos dar ao luxo de deixar de praticá-los. Podemos ser veganos, porém continuarmos racistas classe-média, né? Acho que sim /*ironia (hein, Lipovetsky?).
Ninguém é único porque não pode mover o mundo sozinho.
Alguém é necessário porque pode tomar uma iniciativa.
São duas frases diferentes. Não muito difíceis, mas quase não se fazem entender sozinhas e custam a se complementarem. Alguém pode ser indispensável para outro(s) em alguma circunstância, mas ninguém é ÚNICO.
Cada um que você conhece tem suas características, mas não é impossível que exista outro igual. Admita. Como já disse, isso é aquela mentirinha que seu pai te contou pra você parar de chorar. É muita prepotência achar que não há outra pessoa igual a você, e é muita inocência achar que aquele namorado/marido que você perdeu também era único (em alguns minutos você vai se lembrar facilmente algumas características bem ruins dele que te fizeram deixá-lo, ainda que ele tivesse algumas boas - mas se você o deixou era porque as ruins eram bem ruins mesmo e as boas não valiam tanto a pena).
O amor que se tem é um amor egocêntrico, pelo que as pessoas fazem por você, e não por elas como são. É pelo quanto elas se dizem "leais" a você e nunca te deixarão, não porque você as ama e aceita seu jeito de ser, quer tenham mais ou menos vontade de estar com você. E quando distantes, é só idolatria à imagem delas. A rejeição é só a decepção de "não ter". E quando não tem, você também fica nessa prisão, sofrendo. No fim, é só amor a você mesmo - quer dizer, não tem nada de amor aí.
Se isso aí é o amor, a amizade... não quero não, valeu. A lealdade pode ser uma consequência da amizade, não o contrário. Eu não DEVO nada a alguém porque essa pessoa me ama ou porque fez n coisas por mim, meu amor também é gratuito, faz com ele o que quiser, não tô cobrando. Faço coisas por você porque te quero bem, não porque te quero na minha jaula com minhas regras. A gratidão é ótima, mas as relações humanas não são trocas de produtos. Pessoas não são lojas de favores, sentimentos são dados, não vendidos por outros sentimentos em troca. Perdão não se compra com flores e alegria não se compra com sorvete. Não é não, e nem sempre é melhor ser alegre que ser triste. Que sabe você sobre meu sentimento mais do que eu mesma?
Enfim, dava pra continuar listando coisas...
A dualidade é um conceito inventado há uns 2 mil anos. A idealização do mundo e das pessoas também. Amor platônico, vish, sempre em voga. Dá pra perder as contas de quem já tentou explicar tudo de outra maneira. Nem matando Deus adiantou. Nem matando os homens. Sabemos que tem muita coisa entre amor e ódio. No entanto, continuamos aí dividindo tudo em Luzes e Trevas, Céu e Inferno, bem e mal, vilão e mocinho, na nossa era "livre dos extremismos" e caminhando para a ~igualdade até certo ponto~ (hein Lipovetsky?)
Não acho que as pessoas são substituíveis e descartáveis, antes que vocês venham me tacar pedras. É exatamente o contrário que estou tentando dizer: ainda que haja expressão individual nisso, você não é o que consome, as outras pessoas não são consumíveis e tentar mudá-las para que elas se pareçam com você não vai beneficiar ninguém além de você mesmo. Percebe a relação de consumo e propriedade?
Ao tentar mudar uma pessoa, você só está pensando no seu conforto na sua relação com ela, ignorando o quanto isso pode ser difícil pra ela. Pessoas não são produtos customizáveis. Uma relação com outra pessoa envolve os sentimentos dela, não é uma expressão individual SUA. Não é porque uma pessoa é SUA namorada que deve se adequar aos locais que você frequenta, à sua linguagem, à sua rotina. É aí que você descobre que (clichê) "a metade da laranja era um limão". Lógico, a pessoa não era uma parte SUA, alô, ela é uma outra pessoa antes de qualquer vínculo com você.
Parece fácil pra você pessoa bem-sucedida com emprego em multinacional, sugerir pra alguém que sobrevive com um salário mínimo que se torne vegano ou que consuma produtos sustentáveis de marcas que respeitam trabalhadores. Quando você mesmo tem um ótimo cargo que jamais largaria porque ficaria pobre rapidamente ("assim como ele, deus me livre, né?") - o respeito não sei onde foi. Fácil falar "ah, essa bandidagem maldita" - pra você que nunca passou por tanto aperto financeiro que já pensou em roubar pra conseguir o tênis do ano que todos os seus amigos da escola têm. Igualmente fácil tentar vender esse amor dos filmes pra quem sofre pequenas violências diárias que doem mais que uma facada - e pior, não são reconhecidas porque são veladas, consideradas desimportantes. Vá viver no lugar dessa pessoa e experimente se consegue.
Aí você vem me dizer que a lógica da moda é mais positiva do que negativa e que a humanidade encontrará as ~Luzes~ através dessa irracionalidade? Ok, já se passaram uns 800 anos de história da moda e ainda não vi o fim do túnel.
Nós, "da moda", reconhecemos os modelos e limites e não nos sentimos capazes de forçá-los. Temos tantos conceitos brilhantes e ao transformá-los em produtos...cadê? Sumiram. Porque não há de se mostrar o feio, há sempre de se mostrar o belo. O feio não dá lucro. O transgressor dá, mas dentro do limite do aceitável. O rebelde só é rebelde dentro dos 15 minutos de passarela. Não podemos desapontar a indústria, afinal dependemos dela. Precisamos ter posturas amenas, por isso os extremismos não nos favorecem. O mercado só vende e compra. Até nas relações que se dizem colaborativas, a moda não se desvencilha disso. Parceria e colaboração são palavras de marketing. Na hora de financiar um projeto que não flerte com o padrão estético vigente, ninguém quer. Lei de incentivo é só pra quem gera riqueza (pra quem já é rico e alimenta um consumidor mais rico ainda). A moda é tão cultural e social, mas a preocupação é exclusivamente econômica. No fim, só podemos dizer "Mas o que eu posso fazer contra tudo isso? Nada. É o mercado, funciona assim, vamos virar zen-budistas porque o materialismo não compensa..." (sem largar o emprego, lógico).
Já cansei desse papo.
Não, o consumo não é o caminho.
Sim, a moda exclui.
Quanto? Muito.
Vezes infinito.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Fahrenheit 451
" - Por que você não está na escola? Todo dia eu a vejo vagando por aí.
- Ah, eles não sentem a minha falta - disse ela. - Dizem que sou antissocial. Não me misturo. É tão estranho.
Na verdade, eu sou muito social. Tudo depende do que você entende por social, não é? Social pra mim significa conversar sobre coisas como esta. - Ela chocalhou algumas castanhas que haviam caído da árvore do jardim da frente. - Ou falar sobre o quanto o mundo é estranho.
É agradável estar com as pessoas. Mas não vejo o que há de social em juntar um grupo de pessoas e depois não deixá-las falar, você não acha? Uma hora de aula pela TV, uma hora jogando basquete ou beisebol ou correndo, outra hora transcrevendo história ou pintando quadros e mais esportes, mas, sabe, nunca fazemos perguntas; pelo menos a maioria não faz; eles apenas passam as respostas pra você, pim, pim, pim, e nós sentados ali, assistindo a mais quatro horas de filmes educativos.
Isso para mim não é nada social. Parece um monte de funis e muita água jorrando da torneira, entrando por um lado e saindo pelo outro, e depois eles vêm nos dizer que é vinho, quando não é."