O chato é que nunca tive nem vou ter nenhum "lance ou romance" com você, mas tudo bem. Mais chato é que você me dispensou com uma tremenda educação que eu nunca vi antes. Me levou, me levei a crer que você deva ser uma pessoa legal mesmo. Só que sem saber muito bem o quanto e como. Afinal, te conheci pouco ou quase nada.
Neste ponto, começa uma história só minha e de mais ninguém.
Guardei uma imagem à qual foi fácil recorrer quando a imagem da vida atual não pareceu suficiente, emocionante. Uma história mais empolgante de se contar do que uma simples sequência de equívocos.
Por várias vezes, um carteiro à minha porta com uma encomenda sem destinatário. Abro o pacote, um roteiro mal escrito, no qual o herói é traído, levanta sua fúria e mata. Não diz quem ele mata, mas o verbo é matar. Levo a história comigo, estimo, alimento e insisto em buscar trama, ápice e desfecho melhor. Envio ao remetente e aguardo o retorno revisado. Sucessivamente. Trabalho inútil. Procurando perspectivas em um prisma no escuro.
Agora, me sinto como quem tropeçou no próprio sapato. Não tem história, não tem carteiro à porta. Não tem por que colocá-la como peso sob a roupa de festa. Devolvi a história não lembro para quem, para onde nem quando. A suposta história sem capítulos. A morte do personagem. O personagem era raso com a desculpa de ser um tanto enigmático, apaixonante, fácil, perfeito. O que seria dela se vivesse?
Me petrificava a possibilidade de aparecer qualquer informação que acabasse com a minha gloriosa epopeia. Qualquer interferência que questionasse a necessidade dos cavalos, da batalha e dos cabelos ao vento. Que entregasse a sua característica enigmática como apenas o limite do meu roteiro defeituoso. Caminhei com a história até meu sapato velho e rasgado virar fiapo. Levei ela a casamentos, aniversários, funerais, inagurações, seminários, à praia, voltei para casa. Fui à festa descalça, me vi vulnerável. Nem papéis, nem delírio criativo, nem o sapato em que tropecei. Sobrou a história da história. Contei aos amigos. Incrédulos, continuaram a tomar suas bebidas. Mal contada, não fez sucesso de público.
Ainda é amedrontador encarar que você exista, porque você não fez parte dessa história. Ninguém fez. Porque você é de carne e osso, não é personagem. E nem soube que houve uma história. E eu não sei quem é. Fica uma vontade tentadora e irresponsável de convidar esse estranho para entrar na minha casa bagunçada. Passa e volta. E mais uma vez parece um amor meu pela ficção.
Você está recebendo essa versão em primeira mão.
É a melhor versão da história da história até agora.
domingo, 1 de dezembro de 2019
A história da história nem um lance nem romance
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