sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Aquele post épico heróico

Hoje nem vim escrever como é bom ser dessa maneira ou de outra. Nem chorar ou comemorar nada. Post sobre encorajar, vencer, seguir, lutar, voltar. O estado é de suspensão. Não há tempo na vida para ficar aguardando, mas ficamos. Não há por que pensar tanto, mas o fazemos. Não temos tempo a perder, mas perdemos.


O assunto aqui não é o tempo perdido. Não é agonia, porque não é espera. Não é exatamente aguardo, porque não depende da expectativa, do por vir. O estado de suspensão não tem a ver com o futuro ou o passado, mas com uma necessidade de interromper tudo o que já foi vivido, sem interesse pelo que vem depois.

Como flutuar num oceano sem saber se dá pé. Movendo os braços em movimentos que às vezes nadam, às vezes não. E todo o ar nos pulmões. A água gelando as pálpebras. Qualquer variação é sensível. A cada 12 horas a água se ilumina, fica mais translúcida. Você estava, mas não estava. Presenciou e sentiu tudo, mas ninguém se deu conta. Inclusive você.

Já ultrapassou a desilusão, mas não chega nem perto do tédio.
Está ali, por um momento.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

This is a broken heart age, man

Pensando naquelas conversas que não tive e não sei se terei. Não, não acontecerão e preciso jogar mais terra em cima dessas situações, por isso escrevê-las para dar uma sentença final. Depois talvez rir ou apenas lembrar de maneira distante. Depois sim, elas acontecerão sim, e registro para dizer as palavras certas quando for a hora. Afinal, encarando com distância e racionalmente finalmente se pode dizer as palavras certas. Mas não sei se certas palavras devem mesmo ser ditas para quem já te machucou, querendo ou sem querer, sem saber se foi uma ferida ou só um arranhão. Then, take it back.

Quando vêm, as glórias e desastres não param mais de se suceder. Alguém te decepciona, você decepciona alguém, formação na faculdade, grandes e pequenos projetos, golpe financeiro, dívidas, recessão, a velha batalha por fuckin' dinheiro, a falta de fé na humanidade em geral, reforma de casa, reformulação de opiniões, renovação dos ares, rever filmes que já não lembrava, reencontrar significados em versos de músicas já desprezados. Nunca o tempo havia aprontado dessas sensações de haver esquecido uma história importante, o nome ou fisionomia de alguém que participava dela. Começo a entender aquele velho momento com sua mãe, em que você abre uma caixa de fotos e cartas antigas e ela mal se lembra quem era aquela pessoa que tanto amava na carta que escreveu.

É nesse momento que você percebe o que apenas passou e o que marcou. Quando abre essa caixa e encontra um monte de partes que já nem parecem mais suas, e outras que só de ver a pontinha do papel nem precisa tocar pra saber o que é. As primeiras passam e você aprende com elas, ou às vezes só... não sei, elas te esbarram. Mas as outras continuam te ensinando pelo resto da vida, essas são as que marcam. 

Quantas vezes não se monta e desmonta esse quebra-cabeças de marcas... e elas vão mudando de lugar, ficam mais ou menos visíveis, mas não te deixam. Passam chuvas, enchentes, as fotos viram poeira, as mágoas, o rancor e até a saudade vão embora. São mais que lembranças distantes, e menos do que qualquer coisa que te desperte sentimento agora. Você atravessa um oceano, volta, chove mais, então vêm mais consertos, mais poeira, mais mudança. Mais cartas, histórias, mais gente que você não vai lembrar quem era, e as que você vai lembrar gostando ou não. E aquelas que se manifestam na própria forma de gente, nos lugares, fazendo as mesmas coisas. Que você não sabe se encara como gente ou como lembrança. Que ninguém te ensinou como lidar. Aquelas que vão lá do outro lado do oceano esbarrar com você por acaso. As que te fazem resgatar a fé na humanidade de vez em quando. Algumas que te dão motivo para se importar, e outras com quem você se importa sem motivo. Vendo ou sem ver.  E aquelas que ficam na iminência de aparecer a qualquer momento, mesmo não tendo história alguma. Nem se manifestam, nem desaparecem.

Até o dia que se feche o olho e esqueça. Porque tudo parece estar encaixado. Ou é essa a conclusão a que se chega porque já não tem mais saída e não há mais tempo pra novas histórias. Pra se convencer de que todas as vezes que caiu e levantou valeram a pena. Mas não precisa se convencer de nada, está acabado. Não importa o ápice ou a decadência, a glória ou a derrota, nem o passado quando não se tem futuro a perder. Aquele corpo marcado. Já não precisa mais se preocupar. Se vai esquecer ou se vai levar consigo. Se foi mesmo uma ferida ou só um arranhão.

Que você ame, que lembre, que esqueça, que estime, que aprenda, que ame e odeie de novo. Que pelo resto da vida você lembre os nomes, mas depois... os insetos não ligam se o coração tá inteiro ou partido ao meio. Sabe?

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aquilo

Quando você trabalha, aquilo é o trabalho. Quando estuda, aquilo é o estudo. Quando ama, é o amor. Quando escreve, são as palavras. Quando está sozinho, são os outros. Quando por fim se livra disso tudo, é a comida, o cigarro, a bebida, a diversão, os filmes, os debates, a música.

Aquilo preenche e evita que você porventura saia flutuando por aí por excesso de vazio. Que respire fundo demais e não consiga soltar o ar. Que perceba a própria respiração e os outros sinais vitais antes tão despercebidos. Afinar os sentidos pode ser demais para quem não quer nada, já que até o mínimo ainda é muito.

Ainda que você tire tudo aquilo, não haverá silêncio, haverá respiração, batimentos cardíacos, sintomas. Ao invés do escuro, haverá reflexos nervosos, cores dentro dos olhos e aqueles vultos no preto. Sob os pés, no mínimo o chão. Se não houver roupas, no mínimo o frio ou o calor. Se não houver os outros, haverá o isolamento cheio de questões. Se não houver a comida, a fome. Se não houver amor, a procura. Se não houver vícios, o orgulho. E se não houver trabalho, haverá planos.

Enfim, se houver a morte, será a tragédia, o acaso, o corpo, os restos, a memória, os efeitos. Não é como desaparecer ou nunca ter existido. Aquilo não pode ser anulado.

Não tem fim.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Não era amor, era só tinta branca

Aquele apartamento vazio de paredes brancas e piso claro de madeira. Uma descrição quase tão completa quanto o seu passado e suas variações. Tão novo e já nostálgico. Esse lugar mal tratado agora. Se a tinta não tivesse coberto, poderia distinguir cada mancha na parede, cada esbarrão durante o sexo e a batida que quase quebrou minha cabeça.

Foi a parede branca livre para ser rabiscada, com textura de reboque recente sem nenhuma imperfeição. Nem deu tempo de formar uma camada de poeira nos vãos das janelas, sempre limpas. Típico de um morador sozinho, sem grandes mobílias ou uma cristaleira imponente. Sem copa, corredor, decoração rara. Mesas de bar, luz que balança, nada de mais. Tudo apostado num sofá no canto da sala. Aquele refúgio!

Exatamente. Sua mágica se mantém enquanto contém o mínimo possível. Não leva bagagem, dores, mágoas e lembranças. Depois de tantos fatos, se mantém o mesmo apartamento branco. Poderia ser o ambiente das expectativas, possibilidades e previsões... mas sua brancura cúbica não precisa ser completada. Só deixei rastros facilmente apagáveis e é assim que deve ser.

Estou outra vez lá. Como da última vez, sobrou apenas o box de casal, que sempre desprezei em troca do implacável sofá preto. A louça do banheiro branca, a porta sem cortina da sacada, a luz pendendo. Troco ares e olhares com uma desconhecida mais ou menos conhecida, aquela que não foi. “Olha tudo isso lá fora”. Deixo transparecer a expressão de sobrancelhas caídas que tenho desde criança, o velho pavor das coisas imensas que se transforma num fascínio e bravura.

Até nesse, que é o delírio dos delírios, fiquei com as atitudes bloqueadas. Sem saudade do que não foi, sem expectativa do que poderia ser e sem esperança de qualquer futuro ali ou fora. Somente a conexão com a realidade que era “tudo aquilo”, quando uns poucos segundos de silêncio causam um ponto de inflexão no ambiente: ou a luz se apaga ou a tensão se destrói em palavras.

 Estávamos na grade do 11º andar. Um movimento e um olhar fixo, não mais enviesado. Não houve palavras, o silêncio foi quebrado.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Vida líquida, p. 11

"você vai em frente com rapidez, jamais enfrentando a corrente nem parando o suficiente para ficar estagnado ou se prender às margens ou rochas - propriedades, situações ou pessoas que passam por sua vida-, nem tentando agarrar-se a suas opiniões ou visões de mundo, apenas ligando-se ligeiramente, mas com inteligência, a qualquer coisa que se apresente enquanto você passa, depois deixando-a ir embora graciosamente sem apegar-se..."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Help Sessions - Inca Trail e Machu Picchu

"É… quando nossa zona de conforto fica grande também é sinal de que nosso mundo está ficando pequeno." La Chica de Mochila.

Bem caros fantasmas que leem meu blog, vim desta vez para dar um relato oficial que vai despertar vontades naqueles que nunca pensaram nisso e ajudar outros perdidos que passam por aqui... antes de tudo, quero deixar claro que é um relato otimista e mesmo que você leia por aí coisas aterrorizantes sobre o Caminho Inca, VÁ!

Decidi fazer a viagem ao Peru sem saber muito o que me esperava, já que precisava decidir rápido por n motivos. Eu, minha irmã e minha prima. Tínhamos apenas 10 dias, dos quais passamos uns 3 em Lima e o restante destinado ao caminho até Machu Picchu: 4 dias de Trilha Inca, 1 em Aguas Calientes e intervalos livres em Cusco entre os voos.

A alta temporada ocorre em julho, quando o inverno seco possibilita uma paisagem mais aberta. Fizemos em janeiro, com o tempo úmido e nublado, mas demos sorte nos pontos que precisamos pedir uma licença para as nuvens.

Alguns dias antes, o que eu sabia era basicamente o percurso da trilha, quilômetros e os nomes complicadíssimos do roteiro que estavam todos em quechua (dialeto local). Ah, e também o contrato de turismo que continha partes como "não nos responsabilizamos por problemas de saúde, perda de vida". Bacana, totalmente no escuro. Comecei a procurar relatos em blogs para ter noção do tamanho da encrenca. Hoje não lembro mais quais li, mas (mesmo tendo lido depois), tem esta série de postagens da Camila (La Chica de Mochila), que descreve uma experiência bastante parecida com a que tive e dá dicas mais práticas sobre cada dia da trilha, custos, etc. (usou até a mesma agência. Como muitos fazem, havia a El Dorado do Brasil, que não estava operando para Machu Picchu quando procuramos, então é possível entrar direto em contato com agências de Cusco e negociar por telefone ou e-mail).

E lá se foi a típica paulistana sedentária fazer a trilha. Voltei aos exercícios e alongamentos alguns dias antes: bike, caminhada, etc. A quilometragem parecia razoável: 12, 16, 10 km diários. Mas em subidas e descidas, ESQUEÇAM esses números! Antes de ir, um dos outros relatos que li foi de um caminhante veterano, que provavelmente poderia fazer o trajeto de 4 dias em 3. Como ele mesmo diz, é o primeiro trekking de muitos... também foi o meu e que venham os próximos.

Inti Punku (Porta do Sol 4º dia)
Coisas que podem facilitar a vida na trilha e salvaram a minha: pisar firme e reto. Usar suas quatro patas (bastões) e jogar com seu peso, que inclui os 10kg da mochila. Capa de chuva - não é nada bom chegar no acampamento, abrir a mochila e ter zero roupas secas. Coisas a prova d'água. Água. Gelol. O chá de coca. Comer todas as refeições que me davam. Olhar os precipícios somente quando estiver parado. Confiança - o chão não irá te trair se você estiver certo do que faz. Enfim, evitar essas coisas de perder a vida, hahaha. E se você é daqueles que não gosta de tirar fotos ou aparecer nelas, também esqueça. Muitas fotos podem ficar feias, denunciando o cansaço, e outras transparecendo a alegria depois de ter vencido uma subida, então tire muitas. Dica dos guias: sejam como os japoneses.

Se você tem pernas que funcionam, é apenas uma questão de equilíbrio e foco. Quando se olha as escadarias acima, elas parecem maiores do que realmente são. Quando se vê, já subiu. As escadarias abaixo são o convite para se deixar levar pelo embalo sem cair. Se for chorar, lamentar, vomitar, achar que não vai conseguir, jogar problemas pelo abismo, pensar por que raios foi se meter nisso, faça no 2º dia, o mais HARD. E então no 3º o chão irá passar sozinho por debaixo dos seus pés. No 4º você já acorda envolvido por todas aquelas histórias incas e pensando em chegar a Machu Picchu. E não é que chega?

Sobe aí, gente!
Escadinha no Wayna
Palhinha das escadas















Para quem já pesquisou o roteiro, uma pergunta frequente é se vale a pena ficar mais um dia (5º dia) em Aguas Calientes e retornar a Wayna Picchu (montanha que fica atrás de Machu Picchu). SIM! E desejo a quem ficar que esteja um sol lindo. No 4º dia, se chega entre 10h e 12h a Machu Picchu, e então seu guia te levará aos principais pontos, o que deve levar em média 2h e depois você está livre. Se você for ao Wayna Picchu no mesmo dia, provavelmente terá que fazer isso depois, porque o último horário para ingressar a Wayna é 10h. Optamos pelo 5º para não ficar corrido. Enfim, fomos lá no 5º dia somente nós 3 - foi a vista mais amazing de todo o percurso - ficamos nele até as 14h, e tivemos o restante do dia para ficar em Machu Picchu calmamente, em horários mais vazios, deitar na grama, tirar fotos de quem não tem o que fazer e inventar suposições sobre o lugar.

Todo mundo com cara de winner no 5º dia!
Topo do Wayna Pichu
Pontos altos: passar por precipícios sem medo deles. Dormir ao som da água do rio batendo. Momentos de cabeça vazia. Os banhos frios (a hora de sair deles). Vomitar e continuar melhor =). 4200 m de altitude ofegante. Escadas para subir com quatro patas (creio que existam poucas fotos delas por aí, já que todos que passaram por lá estavam com as mãos mais ocupadas nos degraus). Corredor de caverna pela qual não tinha certeza se meu corpo passaria. Pequenas cores e texturas que encontrei e fotografei para meu acervo de imagens. Aprimorando o portuñol, englishñol, quechuañol. A certeza crescente de que chegaria. Chegar.

Tem gente que aprende muita coisa lá. Eu aprendi a não reclamar mais de escadas.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Despedida Dramática Aos Conhecidos e Desconhecidos

Sentei na praia. Pensei nas pessoas que conheço. E nas que não conheço. Uma por vez. Não tão minuciosamente, mas cada uma teve a sua vez, inclusive as faces desconhecidas dos sonhos e da rua. As recentes e as nem tanto. Chorei. Não de tristeza, arrependimento, saudade, solidão, como se chora por aí. Pela imensidão que enxergava à frente e pelos tantos idiomas que existem depois daquele oceano atlântico. 

Das pessoas que conheço e conheci, várias casaram, namoraram, conheceram outras pessoas de quem estão ao lado até hoje ou fazem aquela mesma coisa que faziam há cinco anos. Lembro de ter presenciado esses encontros arrebatadores na vida delas. Bastante digno, até invejável de certa forma. Acontecem quando decidem mudar ou desbravar seu além-mar, assim se fixando em uma nova terra. Mas quem muda constantemente quase pára de perceber esses momentos e todos se tornam muito passageiros quando na verdade é só você que está com pressa.

 Eu não casei. Não namoro o cara por quem me apaixonei aos 16. Saí de um estágio na metade. Falo com umas duas ou três pessoas da escola. Não tenho mais banda. Virei indie e desvirei umas 500 vezes. Não vou toda semana na mesma festa. Nem tudo fiz ao contrário: fixei meu bastão por 5 anos em um povoado. Chorei por sonhar demais ou por olhar tanto para o longe e esquecer do que está perto. Nem tanto pela mania de futuro como o usual. Por sonhar com opções, enquanto o que a vida coloca são surpresas, dando a impressão de que não tive escolha. E por às vezes não parar no primeiro restaurante que cheirava bem para olhar outros, e depois ter que retornar nele. Demoro mesmo a escolher, mas já fiz boas escolhas sem pensar muito. Aprendi a detectar oportunidades únicas, a aproveitá-las nem sempre.

Pelas paixões forçadas, porque me conheço. Para as verdadeiras só tenho sorrisos, tenham durado minutos ou meses. Por fugir do óbvio. Dos envolvimentos. E percebi que não esqueço um rosto, uma voz. Por evitar tanto as pessoas, tenho em mente que aquelas que conheço devem ser personificadas, marcantes e lembráveis.

 Sempre dizem que irão manter o contato, mas alguns meses depois não têm mais o hábito de perguntar se está tudo bem. Dizemos, me incluo. E então foi você quem sumiu. Se as pessoas sumissem com essa frequência o planeta já estaria bem menos superlotado =). Mas o caso é outro, é que "eles passarão e eu passarinho". Não. Ninguém está atravancando meu caminho. Pelo contrário, estão até o tornando mais bonito com promessas, algumas falsas... mas tão bonitas! Tão eu te amo agora mas daqui alguns dias não sei. Coisas tão ditas no calor do momento, pelas quais outros que vêm atrás passarão por cima. Estou jogando na minha própria cara e na de vocês também. Sem mágoas pendentes, true.

E agora a paisagem é todo dia essa praia. Gosto da vida na areia, mas não adianta... a imensidão do horizonte me devora.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Aos Fotógrafos ou História dum Gato Maldito

Há alguns fatores que podem fazer de você um fotógrafo, assim como há fatores que te fazem um contador de histórias. Como tudo nesse blog, não são fatores técnicos. Digamos que são percepções. A única exceção que acrescento é manter baterias carregadas.

A fotografia exige o mesmo timing de uma conversa. Bem, essa coisa do timing que várias vezes me atrapalha a vida. Perguntas e respostas. Interrupções na hora certa. Piadas e gírias no tom exato. Pontos de vista mais e menos valorizados. Talvez não uma conversa a dois, na qual tudo pode ser corrigido, mas uma conversa casual com indivíduos que vemos pela primeira ou segunda vez. Pisando num terreno no qual o chão não é firme.

Se o sol se esconde atrás das nuvens, a conversa é outra... um catálogo de verão se torna carrancudo, ainda que a modelo sorria. Um objeto fotográfico conhecido deve proporcionar uma conversa mais confortável ou previsível, mas ainda pode te refutar com suas ações. Creio que vocês, assim como nós, também se beneficiam dos chamados acidentes: um pássaro que passou na frente de tudo e fez um vulto incrível, um vento que não era pra bagunçar os cabelos mas bagunçou, um copo que quebrou e deixou a água escorrendo à mostra para ser olhada.

Acredito que os contadores de história se beneficiam mais de um certo houve-não-houve. Os fotógrafos precisam estar lá na hora do “houve”, do acontecimento. Nós também. Mas me parece mais fácil contar um não-acontecimento com uma história, ainda que deva haver meios de contá-lo numa fotografia. Eis o porquê de eu não ser uma fotógrafa.

O caso é que... o gato subiu no muro na exata hora em que me debrucei sobre a janela. Era branco. Seus primeiros olhares disseram “ei, estou aqui!” e as próximas poses foram dignas de um catmodel. Olhou para a câmera várias vezes. Tudo isso enquanto eu tentava desesperadamente fazer essa câmera funcionar sem bateria alguma. Carreguei por 3, depois por mais 3 minutos de poses, que cada vez mais diziam “estou ficando mais do que deveria”. E não consegui clicar nem o “diz que não vai começar a dizer que já vai”. O muro, afinal, ficou. A imagem do gato... só na minha cabeça. Sinal de que tenho acordado à mesma hora da manhã que os gatos vão dormir.

Ao longo do tempo, reparei que as histórias estão por toda parte do que faço. Propositalmente desconexas, mas estão lá: casacos de letras que não se decifram se não explicadas; até os codinomes de pessoas em textos têm uma história própria; senhas de contas cujos números lembram acontecimentos – não meus, de outros, o que é mais assustador; releases mais impressionantes do que a obra. São visões específicas, quadros, impressões e detalhes que se juntam. Prazer, narrativa.

Um gato, que leva a outro gato e outro gato que estava ali antes da foto.
Uma foto que é apenas ridícula sem a sua história do gato que posava no muro.
A porra de uma história de um muro com uma foto dele.
A construção e destruição da sua história no mesmo instante.

Fotógrafo... e se eu te tapasse os olhos? Bem, um fotógrafo ainda é fotógrafo sem uma câmera. Como um herói sem o super poder de parar o tempo, mas ainda o é. Se visse, contaria essa história como tal, não como um contador de histórias. Se não visse... Talvez ainda possa sentir, respirar, lembrar, ouvir e andar. Até conversar. É só ter em mente expirar depois de inspirar e colocar um pé após o outro. E assim por diante.