quarta-feira, 21 de março de 2012

Stop stalking


1. Você não precisa acordar e perceber que o céu está mais claro hoje, você nem precisa dormir para isso. Você só vê o que quer ver: já disse Berger, "Modos de Ver". Procurei a toalha por todo o quarto, no toalheiro, não estava, jogada entre roupas sujas, não estava, até em cima da cama, e bem podia ouvir a voz da minha mãe na infância, "não deixa toalha molhada em cima da cama!", não estava! Tomei o banho, demorei, fiz-me acordar, usei outra toalha, a mais maltrapilha de todas. Voltei para o quarto, fechei a porta e finalmente vi: um gancho atrás da porta, lá estava ela aquela toalha vermelha. Olhar é inevitável, precede qualquer palavra, mas a direção do olhar não deixa de ser uma escolha. Para frente estritamente ou para o todo. Sim, olhar é a escolha, mas não posso tapar os ouvidos e o nariz, pausar o raciocínio lógico e a memória desse cheiro, desse gosto, desse som, dessas sensações que posso distinguir com maestria de olhos fechados.

2. O peso da escolha e seus pontos de sustentação.

3. Push yourself to the limit, as much as you can.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Como fazer roupas, Dykewear, Indignações sobre o mercado, Novidades não-novas e Histórias

Durante a faculdade, você aprende que fabricar uma roupa é assim:
Planta o algodão, tosa o animal ou extrai algum minério. Manda pra um puta maquinário complexo fazer o fio. Outra máquina moderna vai tecer, outras beneficiarem, lavarem, desengomarem, etc. Tem aquela empresa que vai fazer o corante, a outra a resina, o amaciante, a mão-de-obra que vai limpar o algodão, o representante da fábrica, o aplicador de foil, a tinta para o silk, a tela, o secador... Aí vem você, o Criador (de problemas), pra inventar mais gente e mais coisas no processo: a modelista, a costureira, a bordadeira, a facção, o assistente adolescente, aviamento, linha, interferência, acessório, bainha difícil, bolso sem utilidade, pedraria ornamental, babado, godê, plissado, tudo que consome mais tecido, mais tinta, mais tempo e mais processamento. Mais uma roupinha totalmente nova na arara do mercado!

Depois ainda vem a equipe de marketing colocar o produto no pedestal. Você constrói toda a sua loja com cheiro de nova: mobília, cimento, vendedora adolescente que quer ter independência financeira dos pais... a loja cresce, abre franquias, a roupinha vai se multiplicando. O tecido vai se multiplicando, toda a cadeia corre mais e mais acelerada a cada peça. Agora você está com o ego satisfeito.

Você aprende que moda e sustentabilidade são difíceis de conciliar. Que moda sustentável é tudo que é remendado com justificativa vintage. Eu quero que se f* a moda sustentável, ninguém sabe ao certo o que ela é. Se você quer tomar o tempo dessa gente toda acima, ao menos construa um estilo impactante - não que ele justifique os seus 2 milhões de pecinhas na arara toda semana, mas essa discussão é outra... Ser criador é criar desejos, não problemas. É ver, e não cegar-se. É não achar que está tudo certo e normal. A pergunta é: que tipo de desejos estamos criando?

A primeira verdade cruel que ouvi de uma professora, antes mesmo de pensar em faculdade, é que eu não posso carregar o mundo nas costas, coisa que minha mãe poderia ter dito. Entre amor e ódio, essa era a Miriam, dava aula de Análise de Tendências - a disciplina mais fatal sobre as pessoas procurarem na vitrine o que não encontram dentro delas mesmas.

A segunda verdade poética que me levou a esse resultado, encontrei em um grafitti no muro, quando fazia aula de música, citando Jung: "quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta". Estava ali, do lado de fora, na rua. Olho o tempo todo, sonho, desperto, tenho pesadelos, agonizo, sofro, mas é realmente fora dali que encontro resposta para os dramas diários: dentro, de olhos fechados. Criar é ver, não cegar-se, e reagir. O constante conflito entre sonho e realidade.

O terceiro momento poético foi quando conheci a Andrea Crews. Nem sabia o que me esperava, e o Pense Moda parecia de fato mais true nessa época. E o quarto, o momento marketing das últimas férias.

O que tem isso com a dykewear? Joga as indignações no liquidificador com Mapplethorpe, Helmut Newton, os fake straight edges, beatniks e a geração z, aí a gente conversa no fim do ano. Não precisa mudar o sentido da roda. Eu só quero fazer algumas coisas ao contrário, não para mostrar que é possível, mas para acreditar que é...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Hora de tirar os pratos da mesa



Change everything you are and everything you were (...)
Fights, battles have begun (...)
Your hard times are ahead

Your time is now

Para o legítimo taurino, nada é forte e verdadeiro se não é conturbado, o autêntico não pode ser tranquilo. A sua paz está no overdrive, lhe acalma o espírito experimentar a desordem do universo, como sinal da ordem.

Esse seria o clássico post de fim de ano (pra você que vê o mundo acabando em dezembro de 2012, sinto dizer que ele está se acabando desde a hora que surgiu), mas como toda hora é boa pra falar umas verdades e fazer promessas, tanto faz...

Sobre comer primeiro a sobremesa, confesso que sempre fui a irmã mimada que só quer o mignon do filé. E aprendi que toda carne gostosa vem com algum tipo de artifício (alguma filha-da-putagem embutida), o que não é de todo mal para a sociedade em que vivemos. E o número de mignons que se come é proporcional à quantidade de ossos que se encontra nas outras carnes.

Deixando o efeito Matrix de lado, a vida é incerta pois:
1. você pode comer demais e não sobrar espaço para a sobremesa, acaba em decepção e passa vontade na frente de tanto doce.
2. a sobremesa nem é tão boa assim, mas é bom garantir.
3. toda a comida do mundo pode acabar antes da hora da sobremesa.
4. você pode precisar sair antes da hora da sobremesa, por qualquer motivo.
5. se empolgue com tudo o que comer como se fosse a sobremesa (mais conhecido como "viva cada dia como se fosse o último"), pois não vale a pena esperar por um doce que talvez nem exista depois da refeição.

A quinta visão particularmente não entendo! Tenho uma certeza tão absoluta de que o depois-da-refeição existe (não, isto não quer dizer vida-após-a-morte), ao mesmo tempo um medo absurdo de que ele não venha ou da hora que chegar, o que acontece é que o vejo claramente. Isso tudo é calma, mas nem tudo é calma. Explodir em atitudes drásticas pode parecer a pior coisa a se fazer, mas é pior limitar-se a atitude nenhuma.

Parabéns pra você que está aí publicando a sua vida inteira na web e passando vergonha na minha timeline com as fotos que você saiu com a cara mais feia possível. Se seus momentos são tão vazios de significado que você precisa reafirmá-los, parabéns! E o maior parabéns para mim, a reclamona-mór, não estou nem me dando ao trabalho de encobrir meu ócio no The Cool Hunter. Cansei, faz tempo, deve fazer uns 3 anos que me canso das pessoas jantando em volta da mesa, procurando alguém para lhes dizer como se portar, ouvindo os consultores, procurando na vitrine o que não encontram dentro de si mesmas. Celebrem, esqueçam o vestido de gala da ceia, estejam apenas ok! Pra bancar mais a vélha, só eu acho a Sofia Coppola muuuuito kids?

As pessoas na sala de jantar, essas pessoas na sala de jantar, são (muito) ocupadas...

Talvez eu não seja a melhor pesquisadora de cultura jovem, mas certamente incluiria os emos se meu livro chamasse "Tribos urbanas, você e e eu" (deusdocéu!) e fosse escrito depois de 2008.


Prazer, eu sou a Tami, responsabilidade e modéstia!... que tem uma família na praia, ouve Restart o tempo inteiro, é mau humorada, não se envolve e não gosta de almoçar com ninguém. Que recusa sair durante a semana, perde festivais em troca de estudar e não fala da sua sexualidade por discrição.

E pra você que acha que me curte, se eu fosse você correria atrás de saber a outra metade da missa...

domingo, 16 de outubro de 2011

Força versus tempo

Começando uma conversa com "eu sinto muito, mas..." significa uma conversa interminável. Ainda que termine, a vida é a mesma. E ainda que mude, continua a mesma e não preciso de um novo blog para dizer que mudei.

A física e a matemática ajudam, ainda que poeticamente. O terror dos pássaros e as ficções de suicídio sempre dão uma veracidade maior aos dramas reais. Ainda havia muito no que pensar e só passo noites tirando licença poética. Os papéis continuam esperando os rabiscos, se fossem rabiscos o que o público quer ver.

Mas eles realmente não estão interessados em decifrar decifragramas subjetivos feitos especialmente para ninguém. O público ainda procura romance barato e circo disfarçado, noções de felicidade e críticas meio que bem feitas.

Se alguém continuar a me perguntar se não estou bem, só vou responder a quem realmente esteja interessado. Se alguém vier me chamar pra dançar esta noite, digo que eu prefiro ficar sozinha ouvindo aquela maldita música do Arcade Fire, do que cair em prantos nos ombros de potenciais falsos amigos. E obrigada, dó não ajuda ninguém.

Em algum texto passado, "ganhei uma hora de bônus". Neste, perdi uma, mas o que é uma hora perto das tantas outras chovendo? Os pássaros não irão me salvar, mas apenas poder ver que eles estão lá na praia fazendo seu vôo amanhã, irá confirmar que algo continua em seu lugar. Que ainda há algo que me conecta com este chão.

É preciso força. Para não confundir os tempos, ou achar que eles existem, presente-passado-e-futuro. Ou não ficar em um deles. E não acreditar só nele. O tempo está numa espiral, te suga como uma força centrífuga, sempre para a profundidade das coisas. Mesmo que não seja isso que a física diz. A máquina gira com suas roupas, faster and faster, precisa sair dali, lose control. Esse é o tempo, até que a máquina não possa se controlar o suficiente e saia da tomada. E voe, e atinja o incolor mais frio e branco veloz. O furacão a solta e ela levanta vôo, na verdade, arremessada para cima.

É isso, ao invés de "se jogar". Eu não sou um kamikaze. Meu objetivo não é cair de um prédio, é sair do térreo. E se você puder me ajudar com força, não com dó, eu digo força, não palavras de consolo. De palavras já entendo o suficiente para afirmar que elas não prestam. Os rabiscos me esperam por enquanto.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

Parecer de agora


Parece que você fica sem referência sobre o melhor abraço, o melhor gosto e o melhor cheiro do mundo. E sem onde procurar por ele. Sem saída mesmo. Parece. Que olho para os lados e só vejo paredes e muros a perder de vista a altura. Que tenho o mundo todo para andar e estou de pés atados.

Não sei mais onde usar metáforas. Tédio sentimental.

Image: Arina Gordienko http://licc.us/winners/zoom.php?eid=2-11722-10&count=4&cat=


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Tu é trash memo!

Não parece não, pela cara séria, máis tú não consegue manter a compostura. Tem a blasézice de vez em quando, o que é o blá blá blá social de sempre: fazer-se aparecer nos locais certos.

Talvez houvesse um cara mais ou igualmente talentoso ao monsieur Dior na década de 1950, mas onde estava ele escondido atrás dos holofotes? Desde então, tudo me parece não mais [somente] a questão de estar no local-certo-na-hora-certa. Esse tipo de mágica ganhou algumas extensões, como se apenas estar lá não adiantasse, mas que houvesse uma forma de colocar esse pó mágico num ventilador, mais do que gritar, mais do que informar e expressar. Expandir, espalhar e jogar fora de controle.

Cá estamos nós até hoje, cá estou eu, usando esse mesmo método infalível desde o século passado. Já é hora de ficar mais quieta, como se não estar nos locais-horas certos é que fosse a minha força! Ou a preguiça mesmo. Aí é que tá a tua trasheira, garota: falta de paciência com a sociedade, e de tolerância talvez.

Não. Não tolero a sociedade. Não quero lutar por ela e não acredito que ela seja a mais bela forma de viver. Reflito? Sim, adoro falar sobre a sociedade, já que não posso escapar dela por enquanto - o que seria uma desistência fatal, já que fugir do problema nunca é o melhor caminho para resolvê-lo/exterminá-lo.

Não é meu caráter ser o personagem do-contra, mas o watcher com tiros certeiros nas dúvidas, nos pontos de vista não explorados, nas literalidades e conotativos das conversas, das interpretações. Sem psicologia nisso, não fui pra esse curso ou pra Antropologia justamente porque sou mais freestyle.

E medo, muito medo do futuro maduro escravo das lembranças da teenage. Dos surtos de irresponsabilidade e da falsa sensação de solidez. Com essa stalkeria, serão mais ou menos lembranças de possibilidades, de observações platônicas e viagens de Bobby quem sabe. Ou talvez agora, aos 85 anos, de Benjamin, vivendo ridiculamente a idade de forma contrária. Aos 16, terei algumas rugas, mas farei várias amizades. Por tal motivo talvez até seja uma velhinha mais interessante e simpática do que hoje =) [ou não, cláudia...]

No fundo, um bom humor me pega - refletindo para quê? olhe-se, afogue-se no reflexo. quem reflete são apenas os espelhos, bonita. Volta e meia me cansa essa desgraça de compartilhamento. Hay de haver muicha paciência para transmitir reflexões, e talvez algo me ajude durante o próximo ano.

1 ano falando de emo, assunto morto. 1 ano tentando partir de algum lugar na história para se olhar para o hoje. um ano ou seis meses, até menos, para encontrar alguma coisa que se possa contrariar ou apropriar na Europa. e achar uma resposta tipo acadêmica para as perguntas "onde estamos? para onde vamos? quando, com quem ou sem quem?" para-quê talvez não se deva perguntar. chegar a um lugar com certeza sim, mas o quanto vagar antes?

Isso não é um vício porque faz bem. Ou é um vício porque não consigo largá-lo, ele próprio não me abandona e me dá prazer? Dependo de mim, e dependo das ações de vocês.

E de novo a loucura da dykewear. E ainda sentar no chão como artista plástico, olhar para o lado e procurar os faapianos para criticar. O misto conflito do subjetivo com o trabalho. Pode? Está então disposta a assumir os riscos nesse ponto da sua vida, aos 85 anos? A assumir a sua própria imagem de incoerência... a trocar a boa música por uma balada menos hetero? São mais possibilidades forçadas a não ocorrerem. Abrindo-se ao mesmo tempo que barrando-se.

Oh, desnecessariamente. Em alguma outra parte do mundo deve haver esse além-do-horizonte com boa música. Talvez esteja aqui mesmo a um palmo do nariz, mas andar para longe também ajuda a procurar. Preciso ir, viajar sozinha de olhos fechados, meio que perdida e meio que achada. Apertar o play e apenas ele. Não significa só dançar conforme a música, ainda posso tocar a minha guitar that gently wheeps.

No fundo, o mundo não é tão grande, as referências são finitas e recicladas, toda a trendy people preza pela mesma cara de excentricidade e nada parece mesmo tão surpreendente. Mas não é possível que ele seja tão pequeno que não valha buscar este meu-lugar - este que toda pessoa mais comum que existe procura, seja com nome de felicidade, amor, alguém ou minha-casa mesmo.

E olhe o tamanho da humanidade, olhe o que chamamos de racionalidade: autodestruição e esperanças em incertezas. A incoerência ataca, o ódio pela humanidade ferve em minhas veias e a sociedade me fere com suas missões, desejos, apostas, etc. Não são desejos de ninguém! Não há como saber por uma voz invisível o que todos os alguéns desejam, não há com falar por eles... invenção (!)

Preciso me enganar às vezes para manter a tolerância. Até quando irei mantê-la? Finjo que tolero as 15 cabeças curiosas no ônibus processando o sinônimo "viado" ao ouvir "emo". Finjo que tolero as picuinhas cotidianas no ambiente profissional, comentários sobre dinheiro, condições de vida e falsas modéstias - no fundo competições. Cumprimentos e bom-dias já não me incomodam, ok. Preciso de muuuuito combustível para tolerar pessoas que não correm atrás das suas próprias conclusões e referências.

A diferença entre tolerância e paciência - Não me deixem virar uma completa intolerante. E não me façam guardar toda essa carga tolerada. Talvez eu continue atrás do holofote mesmo, a não ser que consiga mais um frasco de paciência para espalhar algum desses planos diabó-licos. Potencial e talento? 10. Não é mentira, não é ego. Problemas, vários, sociais, dos mais variados tipos. Se quiser suportar, está desafiado - cada post aqui é um decifragrama meio fake.

A não ser o cabelo sempre de vento e pela sorte de ser liso, mais alguma blusa meio mal pensada, to mais pra 'don't try too hard to be uncool'. Hipster e hype é o caralho. Esforço pra parecer nada, ah te catar. E meu, se a sala ta lotada, senta no chão mesmo, essa aula vale a pena.

saí falando sozinha, um beijo pra quem quiser!

sábado, 9 de julho de 2011

Choramingando II

Está sofrendo para criar mais rugas? Faz sua literatura cubista, sem contar seus segredos, escondendo mentiras em verdades. Sobre as noites mal dormidas. Drama e sofrimento quase que gratuito. Não tem motivos concretos ou materiais para chorar, só tristeza, abstrato e criado. Sim que o sofrimento é forçado, precisa expor, ainda que para as paredes mal conservadas. Só, como se fosse pouco.

Sua casa não é sua casa. Every time, every where, a única pessoa não-feliz é ela. Ninguém entende por que e ela também não fala. É uma coitada e odeia ser. Que termo horroroso, tenho vontade de bater em todas as pessoas todas as vezes que chamam alguém de coitado. Sem pensar, não teve escolha, não é mesmo? Coitado!

Refletir sobre o peso de suas escolhas. Previa as consequências, dificuldade em vivê-las. Era tão óbvio, parecia uma má escolha, ou uma boa escolha. Tento ainda descobrir qual foi esse caminho estranho, mas ainda imagino tanto o outro, o ‘poderia-ter-sido...’. Algo já superei, mas quase tudo ainda me parece uma péssima escolha, agora.

Minha casa não é minha, apesar de que ela está lá me esperando. Minha experiência será repetitiva para o resto desse tempo, me sinto presa e com maus acontecimentos. Minha mão e meus desenhos, e meus heróis e meu mundo subjetivo, e todo ele que girava em torno do meu ego? Destruído? Vou ter que ser aquela que move montanhas para os fracos?

Força não tem impacto, será. Sonhos, deja vus, não tenho tido mais nada, nenhuma perspectiva imaginária de futuro, passado ou sensações de que já estive aqui. Pleno presente, chato e entediante, cotidiano e rotineiro, nenhuma descoberta triunfante, é assim a “vida”? Ainda que houvesse tempo, dormiria todo ele, não iria a exposições ou ao cinema. Poderia somente ouvir uma música que gosto? Estou sendo tão levada para o momento em que me pergunto “e agora?” de mãos vazias...

Período sabático, estudos estranhos, lembranças indevidas. Sucesso fracassado, insatisfação interior, roupas sem corpo. Mortas são um estado de espera, aguardam no cabide, pouco firme e sem os plásticos de proteção. Chove pedra, caem os respingos, tomam o sereno, o vento e todas as partículas invisíveis que tomam conta delas, continuam mortas. Onde estão os atores? Sem paciência para atuar, para vestir o traje da sociedade.

Queria mais um lugar onde ter o direito de fraquejar, por algum segundo, por alguns compassos. Seguir um grito desesperado da guitarra, sem a música terminar. Onde puder o direito de ficar sem ar, soluçar até não poder mais, precisar de socorro. Onde puder deixar o corpo esmaecer, toda a areia virar água. Sem medo de alguém escutar meu choro silencioso, pudesse soltar um berro de repente.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dramaticamente falando

A dor no estômago e o sono não me deixam despertar tantas emoções fora irritação. Saldos, conclusões? Não sei, mais recomeço e força para continuar. Projetos, objetivos, etc. Um cachecol que discretamente pula da gaveta, a gaveta mais de baixo do armário. Garrafa amassada, com muita história pra contar, pontinho verde na escuridão branca e cinza, fashion colors, inserção de hábito de consumo. Cada objeto que vai compondo essa história: um preto velho, licor, cachaça não, color, colarzinho, preguiça de pelúcia, o moletom que esqueci em cima da cama e a coberta que acabou de voltar da lavanderia.

Fashion couro do cangaço, mochila de retalhos, rock lobster, a cama que passou a noite intocada com um bilhete carinhoso. A almofada na mochila, a conversa alheia, a vontade de sentir o abismo. Diferentes chocolates, história, peso, barroco, santos com caveiras, o candelabro, o balcão – olhar para cima, bam! O lustre a cair em ângulo reto, partir minha cabeça exatamente ao meio. A origem da simetria, do arabesco, da curva da serra e da martelada na pedra.

A velocidade das coisas... então, coloquei um outro lenço sobre aquele cachecol na gaveta, o que não foi muito possível. Ela me espera ali fechada e a garrafa em cima do balcão colorida. Sim, a boneca de juta! No belvedere, olhar por oitenta segundos e fechar os olhos para fotografar na memória, junto com a respiração e o som. A gente pára no meio da estrada gratuitamente, não que se deva chegar em algum lugar. O que menos quero é ver.

Há de se provar com conversa. A objetividade matemática a + b poupa tempo e sofrimento, põe algum ar no seu pulmão. O cheiro do perfume some nos cachecóis guardados. Quantos objetos de design, esses dois piercings! Perdi o chocolate de blueberry. A blusa do gato Félix, onde? Que lembranças eu tenho? Qual esses objetos tomam vida? Olhar para o passado e o futuro com o mesmo carinho? Ê, tempo! Que demarcação bestial ele, um lembrete de não perdê-lo, de corrê-lo, quase de socorro.

Tenho um caderno, um cachecol, uma garrafa e engraçado, são parecidos, camadas de cores e listras, com um detalhe vermelho. É um asterisco, de tudo simbólico. O amassadinho da garrafa e os dois do carro. Que mau cuidado com as coisas, mas estou mais aí para o que tenho com elas. O baixista, o cachimbeiro e a lagosta baterista. Naquele dia, vou acordar e tirar tudo do balcão, vai virar em desenhos, croqui atrás do boleto do banco, nada extremamente inspirado, mas [dizem] criado. Está pronto!
De uma coisa eu sei, da outra não.

terça-feira, 29 de março de 2011

O casaco de Marx - Versão online!

"Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem (...) As roupas recebem a marca humana (...) elas ridicularizam nossa mortalidade... Existe, de fato, uma estreita conexão entre a mágica das roupas e o fato de que os fantasmas, frequentemente, saem dos armários e dos guarda-roupas para nos estarrecer, nos assombrar e até mesmo para nos consolar." http://www.autenticaeditora.com.br/download/capitulo/20090727111813.pdf

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Manual de como fazer 15 coisas ao mesmo tempo

Reflection (ler comentários): http://www.youtube.com/watch?v=6Cf7IL_eZ38

O criativo se liberta, prevê, profetiza, propõe, o marketing ajuda, faz tudo se tornar uma boa ideia, abre caminhos e possibilidades, oportunidades. Em contrapartida, a consciência súbita - do eco design, dos problemas sociais, dos males do planeta, da sustentabilidade, da desaceleração, da revisão dos conceitos de consumo e progresso - não pode se dar ao luxo de criar sem consequências, e sem pensar em todos esses fatores antes de propor uma ideia inovadora. Então, a inovação cai numa armadilha feita por ela mesma: o sustentável foi mostrado, nos últimos tempos, como novidade, e que novidade vem após o sustentável sem dizer que perdeu a ética?

O próprio fato de ter de haver a inserção de uma novidade periga frente à sustentabilidade, pois é mais um acúmulo, ao mesmo tempo que é também uma chance de descobrir um meio de enfrentar esse acúmulo. Conflito cruel, desafio. " Um projeto nos leva adiante (...), e só depois de termos triunfado tecnicamente que nos perguntamos o que fazer dele." Triunfamos tecnicamente e criativamente, e a pergunta que não cala: o que vale mais, o triunfo ou o altruísmo de pensar num futuro menos ruim?

Depende do caminho que se escolhe. Lipovetsky escolhe a felicidade paradoxal. Jum Nakao escolhe derrubar a tenda do circo e formar "pessoas melhores". Thierry Kazazian escolhe "a idade das coisas leves". Outros escolhem chocar esteticamente, outros escolhem a inovação por si opening-minds. Os 15 lados das coisas...

Sobre fazer 15 coisas ao mesmo tempo, não considero esse assunto só uma dessas coisas, mas como uma grande porcentagem do que move o conjunto. A porcentagem menor pode ficar com histórias pra contar, contratos, burocracias e convenções sociais cotidianas como acordar sempre no mesmo horário e comparecer aos locais de trabalho.

Me divirto tirando fotos, catalogando, movimentando projetos, caçando imagens e informações - a parte de comparecer é um ritual que se deve seguir, toma tempo, mas existe para que possa me divertir. A reflexão é que não passa, grita dentro do corpo pedindo tempo, essa preocupação com os rumos e as pessoas e as coisas todas para aprender. É difícil desligar o tempo, que se divide em frações cada vez menores. Digerir rápido prazos e projetos, manter a qualidade, manter o ideal, manter a sanidade, manter as mãos no volante, largar tudo no final de semana e voltar previsivelmente na segunda.

Esforço para se manter acordada! Não só. Acordada e pensante, com umas 30 pessoas testando sua sanidade todas as horas do dia. Cada vez mais, figas para o "dar certo". Voos solos, nevermore...!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Não é muito bonito juntar "estou" e "ferrando", mas fora o desgosto pela humanidade e os poderiam-ter-acontecido, estou me ferrando feliz!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Infelicidade paradoxal

Seria mentira dizer que estou bem. Mando notícias do mundo infelizmente-paradoxal.

Quebraram meu sofá! Me tiraram o sono e o lugar onde dormir, tanto teto pra nada. Mentira de novo dizer que todo o medo de cá é misto com o de lá, que minhas várias angústias momentâneas são a mesma, que o mal é existir.

Escolhi apenas ser, o que por si só e apenas ser é fácil. Porém não posso escolher ser pelos outros, ou ser sem os outros, não posso mais. Sofro calada, dores de cabeça frequentes, corpo sem suporte. É preciso manter a sanidade. Sim, esta é uma afirmação e não uma pergunta. A loucura será um luxo daqui em diante...

Me inspiro na autoridade, brigo com quem devo brigar, falo sem dó, defino meu espaço, eficiência e eficácia. Só na imaginação... e imagino conversas inteiras enquanto elas deveriam estar acontecendo. Aproveite suas chances, seu tempo, viva mais e melhor, não quebre a cabeça à toa. E, por fim, grite um "tudo vai dar certo!". Fé na vida, é mesmo? Se na vida não se encontrasse gente parada e descrente, desgostosa em te ver.

Casa abafada, barulho constante, poluem meu ouvido, nariz, garganta, cansa o corpo, torce o estômago, me cobram a sanidade disfarçada de simpatia. Choro menos pelo medo e mais pela irritação. O medo desaparece durante a queda. Ano que começa cheio de perdas, promete novas fases e constância, ares de consolidação, mas de distância. Dessa vez não é o vazio, é o cheio de tristeza. Água transbordando, derrubando, avisando, ensinando, mas nunca se aprende, se repetem os erros dos humanos, se revolta a água dos olhos e chora tudo de novo.

Celebro a democracia, o lazer, a falta de tempo, o stress, a hora de almoço, o sol da construção, o maldito barulho do trem, as mudanças programadas, os novos laços. Me apaixono pelo Sony Vaio, durmo às noites, encosto-o num canto, não me automedico sem controle. A política é não medir esforços, e não deixar metade da vida de lado. Quase toda a roupa sem lavar, calar, dormir nos intervalos, esquecer de nada. Guardo tudo e tanto que já não tem mais espaço no metro quadrado, saio transbordando desalegria.

Uma equipe de peças apoiadas umas nas outras, cada uma com menos força que a outra, ainda com energias para manter. Eis que cai um raio em uma das peças, todos se mobilizam para apoiá-la, mais do que podem, se tornam vulneráveis. Entra outro grupo de peças, apóia o grupo enfraquecido, apresenta-se solidário, sempre diz bom-dia, mostra preocupação ao amigo, mas o está apoiando de costas apenas com uma parte do pé. Não pode nem lhe interessa fazer mais do que isso. E nós, com fé, colocamos o corpo inteiro no jogo, sem desconfiar.

É pra ser sofrido mesmo, estamos ferrados!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Queixas de Dr. Manhattan parte 82





Não sei mais o que penso, apenas me queixo - e já cansei de começar textos assim. Sou uma antena, tão sensível que me torno estúpida. Por isso o sentimento de tempos áureos, memórias áureas. Sei apenas olhar para o passado, presente e futuro como geralmente se faz para ter uma percepção das coisas. Acabo influenciável, por tudo que acontece e mais ainda pelo que deixa de acontecer. Esse método divisor de tempos, determinante de commodities, formas, tal volume, tal ombro...

O que acontece eu vejo, vejo e me agonia por saber para onde tende. Por saber que tende sempre ao mais confortável, uma sensatez coletiva irritante. Agora, não existe ruptura, existe continuidade. Pelo medo, pelo 'bem do planeta', pelo medo de nossas tentativas se sobrevivência falharem. E falharão. Porque não sabemos conviver, fato.

Tal ilusão é a coexistência que se busca o mundo edulcorado, fatos congelados em memórias, uma esperança especulada para esconder a falta da verdadeira. Como se traduz? Me proponha um desenho, me faça trabalhar nisso, talvez responda em 2011. Mas não há resposta imediata, o que existem são sugestões imediatas e o mercado e seu tempo correndo. Eu sou a resposta, eu emito o que eu quiser. Odeio ser esse radar, agente facilitador da informação. Seria possível que entendessem uma linguagem Dr. Manhattan?

Estou em Marte, é janeiro de 2014, minha mãe morreu, os jogos começaram, ela está colhendo cereja numa fazenda, é março de 75, 10 segundos, nós brigamos, você vai terminar a conversa chorando...

It's the end but is not the end.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

É insônia?


Reflexão novamente, padrões novamente, a eterna guerra do convívio social. Sei bem que esse não é um blog muito usual, sei bem mais que o convívio seria menos complicado se todos usassem a sinceridade e objetividade. Mas seria tudo tão vazio de sonho e ilusão, sem essa mágica da aparência e da mentira bem contada.

De tanto bater na mesma tecla, acho que ela afundou. Diante da tecla afundada me vejo no inevitável momento da decisão. Que fazer se minhas preces já não são ouvidas? Que fazer ao descobrir que nunca foram? Adoro a sensação de queda na realidade, mas quanta realidade quero impor... Sabe aquele cara que sempre diz "mas coOoOoOoomo você não conhece isso?", o coloquei em xeque uma vez, disse: "era um seminário, sobre o livro da Elizabeth Wilson... Enfeitada de Sonhos" e ele como professor deveria conhecer. Não conhecia. Para escapar deu uns passos, proclamou "prefiro mais a realidade mesmo" e foi avaliar outra coleção.

O mesmo cara repete "moda não é arte!" com orgulho, ao passo que meu próximo seminário chama-se Moda e Arte. O mesmo cara triunfa sobre o Brasil, "a moda brasileira não existe, é uma piada..." e lança seus projetos em grandes parcerias. No mesmo lugar só queixas de falta de profissionalismo: a chefe com sua filha de 16 anos que rouba sapatos, a outra que chama o trabalho da estagiária de deselegante, as velhas confecções calcadas no valor da família, a ironia da modernidade comandada pela tradição. É por isso que a moda está ficando chata.

Na teoria tudo é muito bonito, me sinto totalmente criadora, estufo o peito e o ego ao ler histórias sobre o comportamento de McQueen, Gaultier, Chanel e por aí vai. É tudo tão poesia, tão familiar. Nessa hora sinto que o "futuro que nunca chega" vai chegar. Mas a sensação passa, o sonho vira realidade, a minha mentira não vira verdade. E ao invés de estar produzindo estou refletindo. Talvez não sirva pra essa coisa justamente por tal característica. Não sei inventar histórias incoerentes.

Mas preciso entender, por que raios preciso entender essa sociedade? Às vezes vejo e ouço o que não devia. Dois casos explicam...

1. Por muitos meses, convivi com um barulho infernal de furadeira no prédio, motivo pelo qual evitava ficar em casa durante o dia. Trabalhos, inspiração, criação, esqueça. Um belo dia, a furadeira tocava à noite, por volta das 21h, não parava nunca. Impossível de achar onde era, fui caçar esacada abaixo e escada acima. 2 andares abaixo achei, encostei na porta da escada e sem coragem de tocar a campainha, só lamentei. Saíram umas pessoas do suposto apartamento, passaram por mim, outras foram buscar uma pizza, whatever... me aproximei da porta do apartamento e ouvi a conversa "tava parada ali na escada...há, quero ver reclamar!". Os seguranças chegaram. Foram outros que interfonaram pra eles. Tocaram a campainha e eu com eles, vontade de gritar, vontade de tudo... Mas só concordava, eles diziam "poxa, vocês não sabem o estrondo que isso faz nos outros apartamentos", que calmos, que raiva!

2. Não pego mais o carro 5 1616 da linha 874T, fica a dica. Com a calça de bolso mais raso que já tive, o celular caiu e percebi assim que desci do ônibus. Tava voltando daquele maldito curso de cool hunting e até parecia praga do simpático [com ódio] professor: 'háá, quem de vocês nunca perdeu o celular? A gente fica desnorteado, perde todos os contatos blá blá' achando que tava dando uma aula de semiótica, ok. Interceptei o ônibus no trajeto de volta, o cobrador e o motorista "ninguém sabe, ninguém viu". Fui pra casa e liguei pro número. A avançada tecnologia de touchscreen que tava sacolejando no bolso de alguém atendeu a chamada. Outra vez fiquei ouvindo o que não devia. Me senti maníaca, liguei várias outras vezes, só ouvia a voz do cobrador por muitas horas. No outro dia, em espírito heróico, fui culpá-lo. Negou até a morte. Briguei tão calmamente, me faltou um pouco de "kov". E nunca mais peguei aquele carro.

Comecei o curso de cool hunting na esperança de aprender alguma técnica para o que já faço normalmente: observar. Mas descobri que observo até demais, por isso não me convenço de certas histórias. Se eu sei que sou capaz de criar uma história tão boa quanto Chanel ou Dior por que não o faço? Porque estou tentando aprender do 'jeito certo' na aula? Alguns professores me levam a pensar que só estou perdendo tempo. Não sei o que me acalmou por 4 semestres. E continuo sem saber o que vai ser por mais 4. É terrível a história da tendência, como se trata ela. Acaba sendo só uma informação perigosa para beneficiar uns poucos.

Frente a esses pensamentos é que ouço o discurso de minha mãe sobre "a mania de querer fazer grandes coisas". É possível que eu não queira mesmo fazer uma grande coisa, que esse futuro que virá não depende de nenhum ideal a ser atingido. Talvez eu não defenda nada, seria tão viável. O que quero então? Procurar a tão instigante dykewear? Fazer um TCC assustador ou funcional? Para qualquer avanço nisso, preciso tirar essas dúvidas suspensas no ar, talvez seguir o conselho da terapeuta e mudar o motivo da minha insônia. A terapeuta pergunta: é insônia? Não chega a ser, mas coisas que não me deixam dormir, alguma inversão de horários e pólos. Sonho em ser uma 'pessoa normal' e dormir durante a noite, 8 horas saudáveis e praticar exercícios físicos. Logo dessonho, do que quero abrir mão? O que quero arriscar?

Talvez esteja andando com as pessoas erradas, ou melhor: talvez esteja andando com pessoa nenhuma, é o certo. É isso que quero dizer quando acho 4 anos na faculdade uma perda de tempo. O cool hunting foi uma tentativa falha de conhecer 'gente certa', mas a desculpa mudou, talvez não esteja afim de conhecer essa gente agora. Ou para isso seria necessário mais tempo disponível. Tempo que passo na frente do Corel ou encarando as personagens da coleção - que tenho plena consciência que não vai ser produzida. Ok, um dia posso resolver fazê-la, depois de formada whatever, mas já não será o momento, não será o mesmo feeling, não resolverei isso. Acho uma pena criar tantas expectativas em solo falso.

Falo de situações que realmente me deixaram nervosa, e não consigo mais me acalmar sozinha. Os nervos estão aflorando, a raiva se transformando em luta, a luta em batalha, a batalha em guerra... E todos lá fora estão tão calmos vivendo sua vida de sonho [?] lendo a vida das celebridades e sonhando com elas. Eu sonho com os fantasmas que vejo diariamente, o pessoal da faculdade, sonho que era tudo diferente, que algo se resolveu ou que descobri o lado bom de alguém.

Quero ver o "kov" nessa gente mais nova que eu, quero aprender apenas o "kov" e o único lugar a que vou é o Japão, a Rússia ou pra lá dessa Ásia. Não quero ir a Europa alguma, não sonho com ela, apenas me ensinaram que ela é boa. Duvido... apenas pela história, duvido e desconfio. Dou algum valor, mas não é o mais valioso para mim. Do valor também desconfio, uma palavra tão quantitativa. Como exemplo, uma afeto importante falando de uma música: a expressão "amar quando", no pior momento, longe ou perto, quando se comete uma cretinice ou burrada. Também quero amar quando, não quero amar quanto a Europa ou o Japão. Não quero amar valor.

Alguma confiança me mantém ali. Ouço palavras de motivação, leio tantas palavras motivadoras sobre o convívio, mas o convívio em si só me desmotiva. Talvez estar muito certo de suas verdades não seja um bom negócio, talvez o genuíno não queira ser ouvido e talvez, por fim, ele não seja nada quando. Eu mesma devo estar sonhando e esse país de onde venho não existe mais. Agonias. Quanto ao futuro. Sempre isso. Quanto ao presente, quero ver atos de motivação, pois as palavras são como um poço, se joga tudo lá dentro e lá fica.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Cereja Sensações... hmmm!

Mais quantas vezes deixarei de escrever? Mais quantas vezes deixarei de sair porque já são 20 horas? Cada semestre começado são novas metas e promessas. Cada semestre passado é a parede ainda vazia, aquilo que não deu tempo, o futuro ainda por vir, sempre. Cheguei ao apartamento há seis meses proclamando que “daqui a um mês ela já estará cheia de stencils!”. Agora está lá o leão que qualquer hora não terei dó de apagar, meu pequeno mascote.

Hora de conclusões, prospecções... Paris, Porto Alegre e Gramado poéticas. Hora de pegar no tranco outra vez, de gauche à droite e de droite à gauche, Carlos! Tudo meio sonho, acredito apenas nas fotos. Contatos de pessoas reais quase nada. Uma nunca aparece on-line, outra não atende o telefone, mais um que é um perfil adicionado no Facebook, tudo meio mentira, meio vácuo.

Ainda não sei viajar direito. Esses acontecimentos todos me soam tão desvinculados da realidade, e que realidade é essa se não cada segundo em cada lugar? O que me prende então? Não é que “quando não se tem nada a deixar, não se está deixando nada para trás”? Duas ou três peças dessa realidade esquisita separadas por doze horas de sono ou de delírios. Num avião ou num ônibus. Dias cronogramados pelo passo para onde os pés levarem, apenas acordam os dias e decorrem os caminhos.

Para a poesia, a cretinice da vida: contabilizar. Uma lesão no pé, uns centavos de euros, um pouco mais de sono dormido, doze horas como a esquina, um coração quebrado, uma garrafa ecológica, dois mochileiros indecisos, um grupo de oito familiares, uma família vezes 2, um belvedere, quase uma memória perdida.

Pouco acredito que desenho no Corel, e o lápis me serviu apenas para anotações. Falo disso como se outra vida, porque não vejo o espaço passar na janela. Eu acredito na janela e no lápis. A janela para o que passa, o lápis para o que fica. Vi muita arte, muita graça e neblina. Mentira meio branca como papel branco. Gente meio negra como papel negro de grafite, e vestida colorida de cetim, como caneta colorida de cetim. Mulheres cobertas com tecidos e bolsas, gente comendo na rua, saias com bicicletas, gente de chinelo e de sapato, falando enrolado.

Há seis meses, não previa tais acontecimentos. Assim como há seis meses dos seis meses, nem o pequenino leão eu tinha. Quem vê assim, vê muito... E do agora pra frente, quero o muito sempre. Cada vez dessas é uma promessa, é uma meta. Se cumprir metade delas e adivinhar que descobri x vezes mais surpresas fora do roteiro, fico mais feliz com os desvios do que com a eficácia das promessas. Alguém que espera descobrir surpresas não está muito bem da cabeça, mas está melhor do que procurar mistérios em tudo, está levando ou prevendo, pode apenas sentir o cheiro das coisas (...)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Conexões humanas - um olhar para o "sim"

Segue aqui a versão final do conceito da coleção Conexões Humanas. Já que o processo seletivo do FAAP Moda '10 encerrou, posso publicar. Direitos reservados hein. Foto: Mara Marsal.
Metrô Sé, segunda-feira, 18 horas. Cada passageiro espera na massa sua vez de passar pelos bloqueios, se evitam. Um pensamento: “as pessoas vivem em realidades distintas, deve haver um meio de conectá-las”.

O que conecta as pessoas? Universos paralelos, por que não congruentes? Há como transpor a barreira da não-comunicação? São tão distintos assim? A resposta vem de Clarice Lispector, que começa o livro A Hora da Estrela dizendo: “tudo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida”. O primordial na comunicação é o desejo de ligar-se a outro ser humano, a vontade de encontrar um semelhante, não importa como.

É preciso permitir-se ao contato, sem intermédios. Celulares, computadores, os aparelhos falham, pois foram inventados por um humano que não sabe se comunicar. Não sabe apenas dizer o que pensa e sente. Coloca seus fones de ouvido, óculos escuros e tranca-se numa cápsula. Diz um grande “não” ao que está ao redor.

Insistindo em Clarice, reivindico o “direito ao grito” contra essa tecnologia falha: é explosão, raiva, dizer. Por menos telas em nossas vidas! O abraço, o beijo, o ato de dar as mãos. Coisas simples, conexão intensa e verdadeira. O “plug” do corpo é a mão, parte que troca energia. Os olhos que não deixam mentir, o abraço sincero. Quantos metros nos separam?

Avenida Paulista, domingo ensolarado. Drummond: “Uma flor furou o asfalto! É feia, mas é uma flor”. Quando as mãos se tocam, quando os lábios se encontram, quando os corpos se envolvem, “tudo começou com um sim”. O padrão geométrico duro da cidade ganha linhas curvilíneas, sorriso, expressão facial, tato, contato. E um apelo: “mais amor por favor”.