segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cenas: quando não há o que ver ou prever


Nessa hora, o tempo se mostra como é: uma indefinição desacontecida. O passado e o futuro se desdobram no poder do agora. O que sinto daqui não se liga ao antes, e é exatamente o que estou fazendo que define o depois. Se ontem eu vi o futuro, hoje estou alterando a previsão - intervenções. Se ontem me via sentada na sarjeta durante todo o dia de amanhã, e o sono me veio, dormi o dia e a sarjeta tinha meu ex-eu. Dia após dia, enceno mas não defino, e as cenas se sucedem, elas pairam:

Na sala-um, rola uma conversa de elevador, todas sentadas no chão se queixando de como foi cansativo o dia. Enquanto alguém trabalha no escritório de uma casa pequena com jardim, grilos e tartarugas de pedra. É noite. O tango na Argentina deve estar começando, o bêbado no bar tomando seu primeiro copo, e o mochileiro na rodoviária esperando um ônibus no qual vai economizar uma noite de hotel.

Na sala-dois, aula de eco design, dicas de livros, uma costureira te empresta ferramentas e conta anedotas sobre brigas de modelistas e estilistas. Enquanto isso, na casa-um, o arroz queima, como um mau presságio. Mas queima e desce pelo esôfago, estômago – as a ring of fire. Ainda é cedo. Os amantes não se levantaram, os bêbados não sofreram de ressaca, os viajantes continuam no vagão e o artista ainda não tirou o chapéu para agradecer.

No mesmo momento em que o arroz queima, garotos lutam num estúdio. Professores sobem a rua da livraria. Já é tarde. Uma pessoa está no computador abrindo repetidas páginas e pastas. Um sapato está sendo vendido. Ninguém extrapolou os seus limites. Ninguém que sabia. Um bêbado não jogou um gato pela janela. Um dançarino de tango não quis usar mini saia. Um piloto não arremessou o avião porque estava desapontado com a música do Radiohead.

Na sala-três, uma menina derrubou as paredes. Pintou sol por onde viu. Chamou os amigos para uma madrugada no parque, dirigindo carros, supôs que a única bebida moral do universo fosse um disco voador. Era um lugar repleto de amantes passageiros e luas que somem. A essa hora, o sol nasce em São Paulo. Os amantes não dormiram, os grafiteiros pintaram seus sóis e agora estão sujos, os sofredores tiveram insônia, os viajantes veem o sol nascer de Buenos Aires e os carros estão indo para casa. Ninguém consegue um táxi. Se encontram acidentalmente no metrô. Uma garota inofensiva desembarca com um pé de abajur e um taco de baseball, está indo esquecer para lembrar. Enquanto os straight edges vão acordar nas próximas duas horas.

Os poetas? Estão tentando todas as posições e ângulos simultaneamente, eles estão desacontecendo seus passos, fazendo fofoca de uma maneira mais artística. Estão fazendo sua literatura cubista. Enquanto os músicos fazem suas guitarras resmungarem gentilmente. Alguém vai chamá-los para ver um filme, eles dizem “esse filme eu já vi”. No Alaska, um policial matou o companheiro e o sol não vai embora há seis meses – insone. São dez da noite de sexta-feira e ele está com sua caminhonete parada à beira de um lago, está claro. Poderia dar carona para alguém em Buenos Aires. Poderia livrar-se dela ali mesmo. Seis minutos depois de ninguém conseguir táxi, um maníaco acha que conseguirá abordar a mulher que anda sozinha na rua, mas ela assovia. Alguém dorme nos prédios e ele recua com as mãos no cinto.

Estou na biblioteca esperando um correspondente de Amsterdam para uma conferência no Skype. Aqui são oito, lá são doze. As padarias estão vendendo milhares de pães na chapa. O viajante está numa banca procurando um mapa. Na sala-dois, se fala disso tudo! Na sala-um, a roda se desfaz e vira conversa a dois. No bar, um garoto esperou por um flagra de traição a noite inteira e agora dorme no sofá. Meu amigo do Skype não veio. Fiz a louca, fui embora. Cogitei tomar um café, cogitei contar o tempo em cigarros ou em fios de gaze. Perdi todos os compromissos, parei de ser atrasada, parei de ser stalker, parei de gritar beijos no canto da boca.

No fim, esta é uma conversa sobre horizontes e um texto que não precisa de grifos. Quando pensar que não há o que ver, recorra aos fusos horários: nem todos dormimos ao mesmo tempo. Não temos os planetas do mesmo tamanho e não vemos o sol se pôr apenas uma vez ao dia, podemos ver mais. Quando faltar a palavra certa, confio que ela existe em outro idioma. Se o sol brilhar demais, lembro que ele queima, mas continua fazendo os dias e as horas, ainda que elas insistam em se misturar. Que esta seja uma desculpa entre a resposta conveniente e a verdadeira do que eu vim fazer aqui a essa hora.

A noite acabou e o dia não começou. É aquele silencioso intervalo que só se ouve o barulho de uma vassoura trocando a sujeira de lugar. O sinal do dia começando é um alarme tocando... Não nos conhecemos ainda. Apague a memória da câmera e viaje mais.

Nenhum comentário: